Ser ou não ser

13 03 2011

Ser ou não ser, eis a questão. Dizia Hamlet numa das mais famosas peças de William Shakespeare.

Um dia, quando era mais nova, fui ao teatro e tive a oportunidade de ouvir esta frase. Depois, quis ler a peça de fio a pavio, por sugestão de uma amiga, de forma a tentar alcançar o significado destas palavras. Sem grande sucesso. Hoje, acabaram por chegar realmente até mim, sem mais nem menos. De imediato, procurei os motivos.

Há uns dias, uns advogados mais velhos perguntaram-me se eu queria ser advogada. Até ao fim dos meus dias? Parecia ser esse o sentido da questão. Respondi-lhes, ingénua e incredulamente, que não. E depois, emendei (mal parecia pois estava na oral final da Ordem dos Advogados), dizendo que não, pelo menos para sempre (ou somente).

Honestamente não acredito que serei apenas uma profissão, de forma definitiva. Não posso comprometer-me para sempre a ser a advogada. Como me veio essa ideia até mim? Mera ilusão. Posso ser como posso não ser. A decisão não depende só do meu livre arbítrio, mas de outros factores externos. As circunstâncias até me obrigam a ser muitas profissões. Será por isso que penso em não ser?

No tempo dos meus pais, as pessoas podiam querer ser apenas uma profissão. Com um ordenado construíam-se sonhos, previa-se o futuro. Eu e a maioria dos jovens da minha idade fomos realmente uns privilegiados, como filhos dos nossos pais. O Joaquim, enfermeiro, o Manuel, dentista, a Maria, farmacêutica, e a Ana, professora, possibilitavam-nos o acesso à melhor educação, à cultura. Mas, não nos chamem mimados, se foram vocês que nos mimaram. Não nos culpem, pelo menos a todos, de não lutarmos por uma sociedade, trabalho, salário justos e dignos, de maneira a darmos aos nossos filhos o mesmo que nos deram. Reconheçam-nos, pelo menos, sem hipocrisias, que os nossos tempos e os dos nossos filhos são incertos e, por isso, bem difíceis. A não ser que todos, sem excepção, incluindo as gerações anteriores, estejam disponíveis para celebrar connosco um pacto em que se misturem os sacrifícios e se renunciem a alguns invocados “direitos adquiridos”.

Beatriz Meireles, 9 de Março de 2011.





Não há nada de novo debaixo do sol

27 12 2010

         Nihil sub sole novi”, sábio provérbio latino que no seu sentido literal significa que não há nada de novo debaixo do sol. Numa desacreditada interpretação, quer dizer que a natureza humana apresenta formas comuns de ser, pensar e agir que em nada se alteram com a viragem dos anos e séculos, repetem-se os mesmos erros constantemente, ainda que adaptados à natural evolução das sociedades.

            Renovam-se o prólogo e o epílogo da história da humanidade.

            Seguem-se muitas vezes os interesses pessoais e/ou de uma Nação, pelo que qualquer meio é justificado. Sempre assim foi. E é.

            Na verdade, a nossa sociedade é, igual e especialmente, hipócrita, corrupta, mesquinha, invejosa, coscuvilheira. Falta-se à palavra dada, valoriza-se somente a aparência, o superficial, o ter em detrimento do ser. Deixa-se de lado o acto de pensar, procurar por seguir o conhecimento e chegar à verdade. O facilitismo impera. O bom senso escasseia, assim como a virtude, a educação.

            Perante esta panóplia de características bem comuns a todos, temos de esperar que, ainda assim, o Homem, decadente de valores e princípios, saiba eticamente acompanhar o rápido desenvolvimento tecnológico, tão próprio da sociedade de informação e do mundo globalizado em que vivemos. Devemos ter esta preocupação. Estaremos preparados para o desafio ou falharemos?   

            Na verdade, a guerra que é agora virtual, personificada em Julian Assange, a cara da Wikileaks, começou. Luta-se aqui pelo fim da hipocrisia e do poder desmedido dos Estados, principalmente dos Estados Unidos da América e das ditas democracias ocidentais, pela máxima transparência e liberdade de informação. A procura da verdade. Ideologicamente, a luta parece ser mais que válida. Contudo, não pode deixar de nos criar ressalvas. Poderá esta estar acima de qualquer interesse público e da segurança mundial? Os cidadãos terão de ser efectivamente informados de tudo? Assim, não se descredibilizarão ainda mais os Estados, as suas democracias e governantes, favorecendo-se as ditaduras? Não se acabará por esvaziar a verdade, uma vez que é Assange que a controla, podendo negocia-la e divulgando-a apenas quando quiser? Será certamente uma forma de corromper a verdade.

            A História já nos mostrou que devemos desconfiar das pessoas que apresentam ideais tão radicais, pois, criarão um poder, muitas vezes destrutivo, se as seguirmos cegamente sem que as contestemos activamente. E, como o mundo apresenta hoje em dia um rápido e mutável desenvolvimento tecnológico, característico da nossa sociedade de informação, são grandes as exigências éticas. A contrario, teme-se que não conseguiremos parar o mundo quando quisermos e poderá ser tarde demais. Fomos nós que fizemos andar… Compete-nos reencontrar as virtudes, valorizar o pensamento e o conhecimento. Usando a metáfora de Platão, só assim se chegará à verdade, saindo-se da caverna escura.

PS: A todos os leitores do Jornal Fórum, um Feliz Natal e um Novo Ano. Comecemos 2011 com vontade de não vivermos na caverna. 

         Beatriz Meireles, 22 de Dezembro de 2010

Artigo publicado no jornal Fórum – 23 de Dezembro de 2010

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Segundas oportunidades

27 11 2010

O corpo jovem de Francisca vestia uns jeans claros, uma camisola preta e um casaco de uma malha grossa, vistosa. Nesse dia, todas as senhoras que chegavam ao cabeleireiro da cidade ficavam à espera de serem atendidas. Sentavam-se. Esperavam. Conversavam. Fez o mesmo. Que remédio. Era um dia concorrido, aquele. Ao lado dela, a sua mãe Odete, empurrava um carrinho de bebé num vai e vem permanente, aos quadrados amarelos e azuis, marca Chicco. Sóbria e discreta. As senhoras levantaram os olhos das revistas. Já tinham lido as últimas do anunciado casamento do príncipe Guilherme de Gales com Kate. Ninguém ficou indiferente à menina de dois anos. Coradinha. De chupeta na boca. Vestidinho preto rodado, suspensórios, e uma camisa branca com uma gola de renda. Um peluche verde alface, bem esquisito, pendurado na mãozinha. O tempo passou depressa, mas tão pouco ou quase nada ainda, desde o dia em que Francisca e Odete a viram pela primeira vez. Vestiram-na de cor-de-rosa, claro. Era menina. Cara de Ana. Um nome, para ela. O dela. Amaram-na, amavam-na, trataram-na, tratavam-na. Agora, muito mais. Devagar e silenciosa, a avó embalava a menina, enquanto a cabeleireira lavava o cabelo da mãe com um champô revitalizante. Precisava de se sentir uma outra mulher… Mudar a cor da moldura do rosto com uma tinta, talvez. Viver. A avó andava de um lado para o outro, no pavimento de mosaico, a passear a menina ao colo. À mãe, enrolavam o cabelo com umas escovas metálicas e pretas. A avó deitava a menina no sofá de couro branco. Adormecera, entretanto. Que paz. A manicure tirava minuciosamente as cutículas das unhas da mãe. A avó fazia da manta de lã e da menina, um pequeno novelo. Francisca estava finalmente pronta. Que bonita. Pensou. Odete, as outras senhoras e eu, igual. O zumbido dos secadores ficou suspenso, por momentos.

Era viúva. Tão novos. Cheios de planos. Uma menina pequena, para educar. Sem ele. Estava em Angola a trabalhar temporariamente, quando se deu o acidente de automóvel. Caiu de uma ravina. De repente, deixou de poder amá-la, tratá-la. Vê-la envelhecer e a pintar todos os meses o cabelo, por causa das brancas. Nesse dia, a aparência dela mudava, mas apenas isso. Muitos mais meses seriam precisos para que Francisca não olhasse o silêncio dele no espelho. Uma segunda oportunidade para viver, naquele corpo de mulher. Pôs um gloss nos lábios. Ia bem bonita, bem bonita. E saíram.

Beatriz Meireles, 24 de Novembro de 2010

Artigo publicado no Jornal Fórum no dia 25 de Novembro de 2010 – www.jornalforum.com

P.S.: Regresso após a realização do Exame Final escrito da Ordem dos Advogados. Foram quase três anos de estágio. A saga ainda não terminou, mas agora falta muito pouco… mesmo.





Paradise

17 09 2010

Dad… Paradise? What does it mean? Perguntava uma criança de pouco mais de seis anos de idade ao pai, ambos certamente britânicos, tal eram os sotaques, numa praia da ilha de Mykonos, durante o tempo em que estivemos de férias na Grécia. Não me lembro das características físicas das pessoas em questão, mas fiquei a pensar na vozinha que ecoava na entrada do túnel de acesso à praia, assim como na resposta que se seguiu, um pouco embasbacada. Segundo o pai da criança, o paraíso era um lugar onde toda a gente se sentia feliz e, por isso, a palavra paraíso significava necessariamente felicidade.

Chegados ao paraíso, encontramo-la. O sol brilhava mais nesse dia, a água do mar era mais transparente e os pequenos animais marinhos pareciam conviver alegres no meio dos nossos pés, quando resolvíamos dar um mergulho. A música que tocava no iPod, exactamente a mesma playlist que ouço no resto do ano, deixou-me tranquila, completa. Abençoado John Silvy, empregado de limpeza do senado americano que inventou as férias, em 1835. Viva a preguiça. Aquele momento.  

Depressa terminou o bem-bom e regressamos a Portugal. Na primeira semana de trabalho, alterou-se de imediato o meu estado de espírito. A ansiedade, a tristeza e a falta de energia do pós-férias apanharam-me. Não consegui evitá-las, nem mesmo depois de ter lido os conselhos da revista “Visão” de como “regressar ao trabalho sem stress”.

No fim-de-semana que se seguiu, em visita a Ponte de Lima, andava ainda a matutar na pergunta da criança do Paradise, quando ouvi de repente um homem bêbado dizer, quase cantando: “ – Quem paga a crise, quem é? É o povo.” E, dito isto, bebia mais uns canecos e tornava a repetir: “ – Quem paga a crise, quem é? É o povo. O povo… que trabalha”. 

Depois disso, comecei a habituar-me ao facto de que, como não ganhei o euromilhões, teria de trabalhar muito para prover o meu sustento, para poder pagar mais umas férias. Cheguei finalmente a duas conclusões… Já que temos de trabalhar, devemos escolher o que realmente gostamos de fazer (não pensando se teremos ou não emprego) e, não menos importante, devemos aproveitar ao máximo cada momento presente. Citando a este propósito John Lennon, “a vida é aquilo que te vai acontecendo enquanto te empenhas em traçar outros planos”. Estas são duas maneiras de ser feliz. Vou tentar não me esquecer.

Beatriz Meireles, 15 de Setembro de 2010

Publicado no Jornal Fórum a 16 de Setembro de 2010

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Doente e Cansada

15 09 2010

Há mais de uma semana que tenho estado para aqui com pequeninas doenças. Umas atrás das outras. Nunca mais acabam, vejam lá o aborrecimento. Quando finalmente ameaçam esvair-se, criando-se logo em mim uma sensação de liberdade, no dia a seguir uma outra. A frustração. O vazio. Ainda a dor. O meu corpo, bastante jovem, não está habituado a doenças, a ter cansaço. Mas, a olhar agora para a persiana de traves verdes, que tem estado ultimamente corrida, começo a pensar. Ou, simplesmente, dou mais atenção às minhas constantes inquietudes. Sou assim desde que me lembro. Pelo menos. Sou assim há uns minutos atrás. Queria mesmo não pensar, queria desligar por momentos a cabeça do mundo. Do meu mundo em geral. Ligo a televisão na RTP 1. Não devia. Um bombeiro morto, mais incêndios, mais sirenes, fumo atrás de fumo. Na Rússia, noticiam, têm morrido em média setecentas pessoas todos os dias, também por causa do calor e dos incêndios. Na Polónia, Alemanha e República Checa, cheias. Que Verão. Tanta catástrofe. A casa tranquila e o jardim bem mais alegre. O sol finalmente a descobrir. A descompressão. Faltam-me as razões. Para quê afinal? Deixa. Não interessam. Agora o telemóvel a tocar incessantemente, ainda para mais de um número desconhecido. Continua. Não atendo. Em seguida, folheio revistas e jornais. Assuntos sérios outra vez. Não leio. Queria dormir oito horas seguidas por muito tempo, sem responsabilidades, nem preocupações, ou então dormir mesmo até à uma da tarde, como nos tempos da faculdade, tal como dizia o Filipe ter vontade, aqui sentado, ainda há pouco. Tenho crescido. A minha mãe berra da cozinha para almoçar todo o peixe que me deixou no fogão, mas já não manda em mim como antigamente. Não como. Que pena. A doença talvez se deva também a isso. Preciso de férias. Muita saúde, de descanso. Saber descansar e aproveitar ao máximo as férias que se aproximam. Crescer ainda mais. Saber crescer, sem pensar no que ficou para trás, sem ter medo do futuro. Muita coragem para enfrentá-lo. Boas férias.    

P.S.: A todas as pessoas que se encontram doentes, às que estão cansadas e precisam de férias, mas que não as podem ter, dedico estes meus devaneios.   

Beatriz Meireles, 11 de Agosto de 2010               

Artigo publicado no Jornal Fórum – http://www.jornalforum.com





Pequenos nadas

16 07 2010

Apetece-me dizer bem alto: – Ai que calor, ai que gosto me dá. Quando eu era pequenina, ouvia a minha mãe cantarolar algo semelhante. Estava a derreter maravilhosamente ao sol numa cidadezinha espanhola, quando viu um homem sem camisola passear de bicicleta a proferir tais dizeres, enquanto se banhava com uma garrafa de água. Em espanhol, claro (fico-me com a ideia portuguesa, uma vez que não sei “hablar” a língua dos nossos vizinhos e receio cometer uma gafe). Malditos espanhóis. Lá festejam eles o campeonato do mundo, depois de nos terem eliminado pelo caminho. Iker Casillas beija a namorada em directo e promete rapar o cabelo. Cristiano Ronaldo tem agora um rebento e os jornais triviais especulam sobre a origem materna.

Apetece-me escrever fait-divers. Ai que calor, ai que gosto me dá. Deixo para o Inverno, assuntos mais “enfadonhos”, como o uso da Golden Share pelo Governo para travar a venda da participação da PT na brasileira Vivo pela Telefónica (que campeonato do mundo aqui vai!), a redução da pena de prisão pelo Tribunal da Relação a Isaltino Morais para dois anos, o testamento vital (cuja conferência decorreu na nossa cidade, onde tive o prazer de ouvir o Prof. Doutor Daniel Serrão para uma plateia de apenas trinta pessoas, num evento promovido também pela Câmara Municipal e em que naturalmente esta não se fez representar), e o facto de existirem cada vez mais idosos a morarem sozinhos.

Ai que calor, ai que gosto me dá. Toca a música, pelos vistos ninguém consegue trabalhar. São as festas da cidade de Paredes. Agora o telefone.

– Oh menina Beatriz!

– (Ohhhh não – penso) e digo: – Outra vez, D. Rosa? Que me quer?

– Oh menina Beatriz, aiii está cá um calor!

– Humm… É verdade!

– Oh menina Beatriz… Aiii que sozinha estou. Que saudades do meu Zé! Aquilo é que era um homem. Os meus gatos gostavam tanto dele. Sabe que eles também gostam muito de fiambre, mas doem-me muito as pernas para sair a comprar. E por falar nisso… o carro da praça é tão caro… não quer trazer-me duas bolinhas de queijo “Liliano” e três quilinhos de bananas?

– Ohhh D. Rosa, não é “Liliano”, mas sim Limiano.

– Traz-me menina Beatriz? O queijinho “Liliano” é tão bom, e eu não consigo cozinhar. Tou aqui triste e abandonada. Gosto tanto de si, do meu cão e dos meus gatinhos.

E com esta conversa no ouvido, não me apetece dizer mais nada, mas ainda assim sinto-me obrigada a acrescentar: – A solidão dos velhos é um assunto demasiado sério para ser tratado numa crónica de verão, feita de pequenos nadas.

Ai que calor, ai que gosto me dá.    

Beatriz Meireles, 14 de Julho de 2010

Artigo publicado no jornal fórum a 16 de Julho de 2010 – www.jornalforum.com





Querido mês de Março

7 07 2010

Lembro-me agora do velho Antunes. Chamo-lhe Antunes para não ter de dizer que é mais um mendigo que deambulava pelas ruas de Lisboa.

Nesse dia, estava num bairro de Belém, onde existe uma frutaria na esquina com um toldo verde e branco, de nome “Kiwi”, um cabeleireiro minúsculo e muito sujo por ali bem perto, e uma farmácia com uma decoração moderna, que contrasta com a aparência dos restantes estabelecimentos comerciais e das casinhas de construção de pedra que parecem perder vigor, desmoronando a qualquer momento. Trazia, naquele dia do mês de Março, como nos outros que se seguiram, uma manta de lã em cima dos ombros, bem pesada, da cor de um presépio de Natal, coberto de musgo e terra, quando as pessoas à sua volta até vestiam t-shirts de cores claras, camisas esvoaçantes e vestidos primaveris, plissados.

O velho Antunes nasceu numa família de homens de negócios, com muitas posses. Cresceu, por isso, num lugar onde nunca faltaram bens materiais, roupas de grife, jóias, automóveis desportivos e todo o tipo de electrodomésticos e peças decorativas com assinatura. Conheceu sítios inimagináveis, comeu em muitos restaurantes de sabores e cheiros diferentes. Já adulto, fez amizade com as pessoas erradas, meteu-se no jogo, seguiram-se também os maus investimentos e perdeu tudo o que tinha herdado.

O irmão, que sempre fora mais astuto e ganancioso, ficou com todos os negócios do seu pai, avô, bisavô, e por aí em diante. À revelia de Antunes, apoderou-se de todos os diamantes, safiras e rubis da sua mãe. Hoje em dia, as suas acções estão muito bem cotadas na bolsa e conhecem ganhos extraordinários.

Nos últimos tempos, ao viajar até Lisboa, passeei no bairro de Belém. O velho Antunes já lá não estava, não podia receber mais visitas. E, não sei muito bem porquê, lembro-me agora do funeral do meu avô. Também não posso visitar mais a sua casa da cidade pequena, de janelas verdes, com dois canteiros, de um lado e do outro da escada que me leva à porta. Recordo com muita saudade a altura em que viajava num dos seus automóveis antigos, dos passarinhos que cuidava com tanta dedicação, e dos relógios que fazia funcionar. Desde que começara a ficar doente, nunca mais tinham dado as horas ao mesmo tempo. Nem mesmo o relógio da lareira de pedra, que está no mesmo sítio do costume, onde eu moro. Mas, ao contrário do que aconteceu no funeral do velho Antunes, ao do meu avô veio muita gente despedir-se. Gente que gostava e se lembra ainda dele. Os homens permaneciam de pé à porta da capela gélida, feita de blocos cinzentos, onde existe uma única janela, que colora o espaço mais de cinza, pois não há uma única flor no exterior, apenas ervas daninhas teimosas e calcetaria de cor amarelada. As mulheres iam transpondo a porta, permanecendo lá dentro, junto do corpo do avô e das flores, que, eram cada vez mais, de todas as cores e feitios. Gente que gostava e se lembra dele muitas vezes. Lembro-me agora.          

E esta é a minha história. Talvez seja aquela que o velho Antunes me podia ter contado. Agora o bairro de Belém não é mais a sua casa. A pesada manta perdeu-se entretanto e, com ela, o seu arrependimento.

Beatriz Meireles, 16 de Junho de 2010   

Artigo publicado no Jornal Fórum – www.jornalforum.com