Ser ou não ser, eis a questão. Dizia Hamlet numa das mais famosas peças de William Shakespeare.
Um dia, quando era mais nova, fui ao teatro e tive a oportunidade de ouvir esta frase. Depois, quis ler a peça de fio a pavio, por sugestão de uma amiga, de forma a tentar alcançar o significado destas palavras. Sem grande sucesso. Hoje, acabaram por chegar realmente até mim, sem mais nem menos. De imediato, procurei os motivos.
Há uns dias, uns advogados mais velhos perguntaram-me se eu queria ser advogada. Até ao fim dos meus dias? Parecia ser esse o sentido da questão. Respondi-lhes, ingénua e incredulamente, que não. E depois, emendei (mal parecia pois estava na oral final da Ordem dos Advogados), dizendo que não, pelo menos para sempre (ou somente).
Honestamente não acredito que serei apenas uma profissão, de forma definitiva. Não posso comprometer-me para sempre a ser a advogada. Como me veio essa ideia até mim? Mera ilusão. Posso ser como posso não ser. A decisão não depende só do meu livre arbítrio, mas de outros factores externos. As circunstâncias até me obrigam a ser muitas profissões. Será por isso que penso em não ser?
No tempo dos meus pais, as pessoas podiam querer ser apenas uma profissão. Com um ordenado construíam-se sonhos, previa-se o futuro. Eu e a maioria dos jovens da minha idade fomos realmente uns privilegiados, como filhos dos nossos pais. O Joaquim, enfermeiro, o Manuel, dentista, a Maria, farmacêutica, e a Ana, professora, possibilitavam-nos o acesso à melhor educação, à cultura. Mas, não nos chamem mimados, se foram vocês que nos mimaram. Não nos culpem, pelo menos a todos, de não lutarmos por uma sociedade, trabalho, salário justos e dignos, de maneira a darmos aos nossos filhos o mesmo que nos deram. Reconheçam-nos, pelo menos, sem hipocrisias, que os nossos tempos e os dos nossos filhos são incertos e, por isso, bem difíceis. A não ser que todos, sem excepção, incluindo as gerações anteriores, estejam disponíveis para celebrar connosco um pacto em que se misturem os sacrifícios e se renunciem a alguns invocados “direitos adquiridos”.
Beatriz Meireles, 9 de Março de 2011.